Jornada aborda violência sexual intrafamiliar e trajetória infracional

24 Mai 2017

Por: Ana Paula Oliveira /SECOM/VIJ/TJDFT

Na tarde desta segunda-feira (22/5), Silvia Renata Lordello, psicóloga e professora da Universidade de Brasília – UnB, e Mário Volpi, gerente de projetos do Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef, palestraram na I Jornada Psicossocial e Jurídica do Sistema Infantojuvenil, realizada no auditório Ministro Sepúlveda Pertence, no Fórum de Brasília. A Jornada, promovida pela Coordenadoria da Infância e da Juventude – CIJ/TJDFT, pretende difundir conhecimento e aperfeiçoar a prática de profissionais do Sistema Infantojuvenil do DF e de outros órgãos.

Mitos em relação à violência sexual intrafamiliar

I Jornada Psicossocial e Jurídica do Sistema Infantojuvenil

Violência sexual intrafamiliar foi o tema da explanação de Silvia Renata Lordello. A psicóloga deu início à palestra perguntando aos componentes da plateia qual a área de atuação e formação de cada um, sendo possível identificar profissionais da Secretaria de Estado de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do DF, servidores do Poder Judiciário, assistentes sociais, psicólogos e integrantes do Sistema Socioeducativo do Distrito Federal. “É motivo de muito orgulho a diversidade de profissionais envolvidos com o tema aqui representados. Somos militantes desta causa e fazemos com que ela ganhe visibilidade”, afirmou.

A psicóloga ressaltou o fato de a violência sexual contra crianças e adolescentes estar sempre presente na mídia, no trabalho, na vida de todas as pessoas, independente da classe social. Mas, embora tão presente, os números não revelam a realidade dos casos de violência sexual que acontecem no Brasil. ‘’É um grande desafio, pois, apesar de todas as campanhas que fazemos para que as pessoas se sintam à vontade para denunciar, o preconceito e a visão de investigação ainda atrapalham”, revelou.

Silvia elencou os mitos que a sociedade carrega em relação ao abuso sexual cometido contra crianças e adolescentes: acreditar que o abuso sexual é consequência da pedofilia; se a adolescente foi abusada é porque provocou; não há como conter o impulso sexual masculino; violência sexual só ocorre nas classes menos favorecidas; a criança ou adolescente sentem repulsa pelo abusador; a criança inventa e fantasia. ‘’Devemos ter muito cuidado com esses mitos, pois muitas vezes trazem a culpabilização da vítima’’, alertou.

Destacou ainda que a violência sexual intrafamiliar tem uma dinâmica antagônica, pois o ambiente onde a criança deveria se sentir protegida é o local de vulnerabilidade e de antiproteção. Além disso, outra característica desse abuso, revelada pela professora, é a cisão psíquica de papéis. “É confuso para a criança separar o agressor da pessoa que cuida, brinca e educa. Muitas vezes a criança não tem repulsa ao autor, mas repulsa ao ato”, ponderou.

Com um enfoque para o futuro, a professora falou dos desafios para combater a violência sexual intrafamiliar de crianças e adolescentes. A compreensão e intervenção; o combate à naturalização da violência; o mapeamento da rede de proteção; atuar de forma interdisciplinar; capacitar profissionais que atuam com vítima e ofensor e promover subsídios para políticas de combate à violência sexual são ações enumeradas por Silvia.

Enxergar o sujeito como ele é

I Jornada Psicossocial e Jurídica do Sistema Infantojuvenil

A medida socioeducativa como espaço de ruptura da trajetória do adolescente na prática do delito foi o tema abordado por Mário Volpi. Ele trouxe uma reflexão sobre conceitos por trás da projeção feita aos adolescentes. ‘’Devemos entender a adolescência pelo que ela é e não por aquilo que imaginamos que ela seja. É um exercício difícil de ser feito, pois nos orientamos por paradigmas, conceitos e visões. Não enxergamos o sujeito como ele é”, analisou.

Volpi explicou sobre os modelos estatais que existiam antes da promulgação do Estatuto da Criança e do adolescente – ECA. O primeiro era o assistencial, que tratava o adolescente como incapaz. Em seguida veio o modelo correcional, em que os adolescentes eram vistos como irresponsáveis.

“Como uma tentativa de superação desses modelos, a partir de 1990, com a aprovação do ECA, focamos o olhar para essas crianças e adolescentes como sujeitos. A medida que deve ser aplicada a eles é a socioeducativa, ou seja, os problemas dos adolescentes em conflito com a lei devem ser resolvidos dentro da sociedade’’, elucidou.

O gerente do Unicef acrescentou ainda que a dinâmica da vulnerabilidade social, da violência, da exclusão social e da vitimização leva à prática do ato infracional. ‘’O ato tem como pano de fundo uma violação de direitos. Portanto, é com a garantia desses direitos na sociedade que podemos reorganizar a vida da criança e do adolescente’’, esclareceu.

O palestrante propõe uma ruptura de conceitos e a descoberta da chave que está por trás dos delitos e da vitimização dos jovens. ‘’Não adianta a gente querer resolver um pedacinho do problema; o ser humano é um conjunto de relações de poder, de forças emocionais e afetivas. Precisamos dialogar com essa subjetividade pela visão de educador’’, avaliou.