Juíza Federal filiada à Abraminj participa de congresso mundial sobre bullying e de audiência com o Papa

07 Nov 2017

Por: Abraminj com informações dos portais Radio Vaticana e Agência Ecclesia.
Foto: Portal Agência Ecclesia

O bullying entre crianças e adolescentes é tema que afeta o mundo e não se restringe apenas ao espaço escolar. Ele vem ganhando maior alcance no ambiente cibernético, com agressões cada vez mais intensas pelas redes sociais. O tema foi debatido no congresso internacional “A dignidade do menor no mundo digital”, promovido pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de 3 a 6 de outubro, na cidade de Roma – Itália. Entre mais de 140 convidados, esteve presente a Juíza Federal da 35ª Vara da Seção Judiciária de Minas Gerais Simone dos Santos Lemos Fernandes, que é filiada da Associação Brasileira de Magistrados da Infância e da Juventude – Abraminj. Simone é também Diretora do Foro da Seção Judiciária de Minas Gerais e Coordenadora Criminal do Estado de Minas Gerais.

Entre os convidados, figuraram mais de 140 especialistas dos campos acadêmico, empresarial e da sociedade civil, além de lideranças políticas e religiosas, engajados no combate à exploração de crianças e adolescentes online. Atualmente, há mais de 800 milhões de jovens expostos ao risco de bullying na Internet, extorsões, ultrajes e abusos sexuais: agressões que geram graves e por vezes permanentes sequelas psicológicas.

Declaração de Roma

Ao final do encontro, os participantes redigiram a Declaração de Roma. O texto foi entregue por uma jovem irlandesa, em nome das crianças e adolescentes do mundo, ao Papa Francisco, em uma audiência realizada na cidade do Vaticano, no dia 7 de outubro, quando o pontífice recebeu todos os participantes do congresso.

O Papa manifestou o seu apoio à Declaração e pediu a colaboração das lideranças religiosas, garantindo a disponibilidade e o empenho dos católicos nesta área.

Em sua fala, O Papa Francisco definiu o mundo digital como “fruto do progresso da ciência e da técnica”, mas que “transformou em poucas décadas o ambiente de vida e o modo de comunicar e de viver e até o modo de pensar e de ser”.

“É preciso manter os olhos bem abertos e enfrentar o aspeto obscuro da rede, que se tornou um lugar propício para os seguintes crimes: pornografia, bullying, tráfico online de pessoas, prostituição”, advertiu. O pontífice ponderou ainda que esse problema “novo e gravíssimo” gera dificuldades no diálogo entre as gerações.

Francisco finalizou a audiência para se expressar em relação à infância. “O que fazemos para que essas crianças nos possam olhar sorrindo?  O que fazemos para que esses olhos não sejam corrompidos por aquilo que encontrarão na rede? Trabalhemos para ter sempre o direito, a coragem e a alegria de olhar nos olhos as crianças do mundo”, concluiu. 

Para ler a Declaração de Roma orginal: clique aqui: Parte 1 e Parte 2

Ou leia abaixo a declaração traduzida

Declaração elaborada pelo Congresso Global: A Dignidade dos menores no mundo digital, realizado em Roma, nos dias 3 a 6 de outubro de 2017, na Pontifícia Universidade Gregoriana. A Declaração foi publicada pela Sala de Imprensa da Santa Sé, 06-10-2017.

Tradução: Luisa Rabolini (site http://www.ihu.unisinos.br)

Papa Francisco - "Pela forma como se tratam as crianças, pode-se julgar uma sociedade"

A vida de cada criança é única, importante e preciosa, e toda criança tem o direito à dignidade e segurança. Hoje, no entanto, a sociedade global está falhando profundamente em proteger suas crianças. Milhões de menores sofrem abusos e são explorados nas formas mais trágicas e indizíveis, em uma medida sem precedentes, em todo o mundo.

Os avanços tecnológicos exponenciais e sua integração em nossas vidas cotidianas estão mudando não só o que fazemos e como o fazemos, mas estão mudando o que somos. Grande parte do impacto dessas mudanças tem sido claramente positiva. No entanto, devemos enfrentar o lado obscuro desse novo mundo, um mundo que está permitindo que um grande número de males sociais que podem ferir os membros mais vulneráveis da sociedade.

Ao mesmo tempo em que não há dúvida de que a internet cria inúmeros benefícios e muitas oportunidades em termos de inclusão social e educação, hoje, mais e mais conteúdos extremos e desumanizantes estão literalmente ao alcance das crianças. A proliferação das mídias sociais significa que os atos insidiosos como o cyberbullying, o assédio e “sextortion” (extorsão sexual) estão se tornando cada vez mais comuns. Especificamente, a amplitude e o alcance de abuso sexual de menores e a exploração online é chocante. Um grande número de imagens de abuso sexual de crianças e jovens está disponível online e cresce sem cessar.

O impacto deletério da pornografia nas mentes maleáveis de crianças é mais um dano grave a que a rede os expõe.

Nós compartilhamos a visão de uma internet que seja acessível a todos. No entanto, acreditamos que também deva incluir o reconhecimento do valor inegociável da proteção a todos os menores.

Trata-se de enormes desafios, mas não podemos nos abalar nem reagir com desânimo. Devemos trabalhar em conjunto para buscar soluções positivas para todos em condições de promover a responsabilidade de cada um. Precisamos garantir que todos os menores tenham acesso a uma internet segura, para enriquecer a sua formação, as suas comunicações e as suas relações.

As empresas que trabalham no âmbito das novas tecnologias e os governos são chamados a assumir os papéis de líderes nessa batalha e devem realizar constantes inovações para assegurar uma melhor proteção dos menores. Também devemos exortar as famílias, as vizinhanças e as comunidades em todo o mundo e as próprias crianças para que sejam mais conscientes do impacto que a internet causa sobre as crianças.

Já dispomos de plataformas poderosas e líderes em nível mundial que estão realizando progressos significativos na concretização dessas aspirações. O Centro de Proteção da Criança na Pontifícia Universidade Gregoriana realiza um trabalho internacional a favor da proteção em 30 países e 4 continentes.

WePROTECT Global Alliance, fundada no Reino Unido em parceria com a União Europeia e os Estados Unidos, reúne nessa batalha 70 nações, 23 empresas de tecnologia e muitas organizações internacionais.

A ONU está no comando de um projeto global para atingir o Objetivo para o Desenvolvimento Sustentável 16.2, para erradicar a violência contra as crianças até 2030, em particular através da parceria global "End Violence Against Children".

É um problema que não pode ser resolvido sozinho por uma nação, uma empresa ou uma única religião, é um problema global que requer soluções globais. Exige que construamos uma consciência geral e mobilizemos ações de todos os governos, todos os credos religiosos, todas as empresas e as instituições.

 

A Declaração de Roma lança um apelo para agir:

1 - Às autoridades do mundo para que realizem campanhas globais de sensibilização para educar e informar as pessoas no mundo a respeito da gravidade e extensão do abuso e exploração de crianças em todo o mundo, e incentivá-las a exigir intervenções por parte dos líderes nacionais.

2 - Às autoridades das grandes religiões do mundo, para que informem e mobilizem os membros de cada credo religioso a se unir em um movimento global para proteger as crianças do mundo.

3 - Aos parlamentos do mundo, para que melhorem a legislação para uma proteção mais eficaz dos menores e chamem para responder por seus crimes aqueles que se tornam responsáveis pelo abuso e a exploração de crianças.

4 - Aos líderes de empresas de tecnologia para que se comprometam a desenvolver e implementar novas ferramentas e tecnologias para combater a proliferação de imagens de abuso sexual na internet e impedir a redistribuição de imagens de menores identificados como vítimas.

5 - Aos ministérios mundiais de Saúde Pública e líderes de organizações não-governamentais para que incrementem ações para salvar as vítimas de menor idade e melhorem os programas de tratamento para vítimas de abuso e exploração sexual.

6 - Às agências governamentais, à sociedade civil e às forças da ordem, para que trabalhem para melhorar o reconhecimento e identificação das vítimas e garantam o seu apoio para o enorme número de vítimas de abuso e exploração sexual de menores ainda escondido.

7 - Às forças da ordem no mundo, para que aumentem a cooperação local e global, a fim de melhorar o intercâmbio de informações para a investigação e aumentar os esforços de colaboração com relação aos crimes contra os menores que ultrapassem as fronteiras nacionais.

8 - Às instituições médicas do mundo, para que aumentem a formação de profissionais da saúde na identificação de indicadores de abuso e exploração sexual e melhorem as modalidades de sinalização e tratamento.

9 - Às instituições privadas e governamentais, para que aumentem os recursos para os profissionais no âmbito da psiquiatria e dos especialistas de outras formas de cuidado, a fim de aumentar os serviços de atendimento e reabilitação para as crianças que sofreram abusos e exploração.

10 - Às autoridades com responsabilidades no âmbito da saúde pública, para que promovam a investigação sobre o impacto que a exposição à explícita e extrema pornografia online exerce sobre a saúde de crianças e adolescentes.

11 - Aos líderes de governos de todo o mundo, aos órgãos legislativos, às empresas privadas e às instituições religiosas, para que promovam e implementem técnicas para evitar que as crianças e os jovens tenham acesso a conteúdos de internet aos quais só devem poder ter acesso o público adulto.

12 - Aos governos, às empresas privadas e às instituições religiosas para que realizem campanhas globais de sensibilização pública destinadas às crianças e aos jovens, para educá-los e proporcionar-lhes as ferramentas necessárias para uma utilização segura e responsável da internet e para evitar que seja causado dano a tantos de seus pares.

13 - Aos governos, às empresas privadas e às instituições religiosas para que realizem campanhas globais de sensibilização para tornar os cidadãos de cada país mais alertas e conscientes em relação ao abuso sexual e à exploração de crianças, e por que incentivem a denunciar casos de abuso e exploração às autoridades competentes, na eventualidade de ver, tomar conhecimento ou ter alguma suspeita de que estejam ocorrendo.

Nesta era de internet, o mundo enfrenta desafios sem precedentes a fim de proteger os direitos e a dignidade das crianças e protegê-las de abusos e da exploração. Esses desafios exigem uma nova maneira de pensar e novas abordagens, uma maior consciência em nível global e uma liderança inspirada. Por esta razão, esta Declaração de Roma lança um apelo a todos, para que se ergam em defesa da dignidade dos menores.