Ativista indiano Nobel da Paz 2014 fala sobre Justiça e Paz em congresso da Abraminj

15 Jun 2018

Por: Liliana Faraco e Laura Guarilha/Abraminj
Foto: Enia e Rabelo

Na manhã deste segundo dia do XXVI Congresso da Associação Brasileira dos Magistrados da Infância e da Juventude - Abraminj, 12/6, os participantes receberam o ganhador do Nobel da Paz de 2014, o ativista indiano Kailash Satyarthi, para proferir a palestra “Diálogo sobre Justiça e Paz”, que falou sobre exploração sexual, tráfico de pessoas, violência, trabalho escravo e outras mazelas que atingem crianças e adolescentes em todo o mundo. Fizeram parte da mesa de abertura o presidente eleito da Abraminj, desembargador José Antônio Daltoé Cezar; a primeira vice-presidente, juíza Katy Braun do Prado, e o ex-presidente entidade juiz Renato Scussel.

A conferência iniciou com a apresentação de um vídeo que mostra a atuação de Kailash em prol dos direitos da infância em várias partes do mundo. “Ser cumprimentado pelas crianças é o melhor prêmio que eu poderia receber”, disse em um trecho do vídeo. Em outro, ele afirma já ter tido armas apontadas para sua cabeça por combater o trabalho escravo infantil, mas nunca se intimidou diante da grandeza da causa que defende. “Alguém tem que pagar esse preço. São 150 milhões de crianças e adolescentes em trabalho escravo pelo mundo. Eu trabalho para libertar todas elas. Cada minuto importa. Toda criança importa.”, sustentou.

Ao começar a palestra, Kailash agradeceu: “mais uma vez eu gostaria de agradecer à Abraminj, especialmente ao meu irmão, juiz Renato. O Brasil é meu segundo lar, eu já viajo para este País há 20 anos para conversar com o Judiciário, Congresso Nacional, governos, sociedade civil organizada, sindicados e outras instituições”. Ao se dirigir aos magistrados, ele pontuou: “Vocês são os salvadores dessa geração. Se forem capazes de dar esperança e confiança através de suas ações como juízes vão estabelecer esperança e fé nas instituições. Se o Judiciário falha, a nação falha. Vocês são mais especiais do que muitos outros segmentos da sociedade deste País”.

Kailash dividiu sua explanação em quatro partes. Ele falou sobre o problema que as crianças enfrentam hoje no mundo; a luta para encontrar soluções para esses problemas, passando pela educação, segurança e bem-estar; os esforços internacionais em lidar com os problemas de crianças e adolescentes e inciativas bem-sucedidas e, por fim, sobre o papel do Judiciário que tem visto em seu trabalho na Índia e em outros lugares do mundo.

“Queridos amigos, hoje é o Dia Mundial do Combate do Trabalho Infantil, é o Dia dos Namorados no Brasil. Então, estou viajando com minha esposa, e como o juiz Renato disse, o namoro pode ser entre instituições, entre sociedades. Nosso relacionamento deve ser de amor e de respeito mútuo. Se nós perdermos a confiança, perderemos tudo. E eu prometo que sempre vou respeitar a sociedade brasileira.”, declarou o ativista.

Kailash fez uma avaliação sobre a situação das crianças no mundo. “Enquanto estamos conversando, um bilhão de crianças estão vivendo em situação de intensa pobreza. Elas não têm educação, segurança, nutrição ou água potável. Cerca de 50 milhões de crianças estão construindo prosperidade para os outros à custa de sua infância e metade delas se encontram em condições extremamente perigosas. Muitas nunca foram à escola ou então saíram antes da educação básica”, lamentou.

O ativista traçou um comparativo: “A sociedade conseguiu chegar à Marte e não consegue abraçar essas crianças, que são imigrantes, refugiadas, vítimas de tráfico. 50 milhões! Elas não são apenas um número. Elas têm nomes, são criaturas vivas, seres humanos que sentem e choram. Não são simplesmente números”.

Kaylash dividiu as histórias de sua vida como ativista com a plateia e o que o faz continuar nessa longa jornada ajudando as crianças de todo o mundo: “Após a primeira libertação de crianças escravas em 1991, eu nunca mais desisti, pois foi uma alegria e uma realização”, compartilhou o Nobel da Paz.

Ao finalizar a palestra, Kaylash ainda respondeu perguntas dos magistrados participantes, que o agradeceram pelo trabalho de uma vida em prol da causa da infância e juventude.

Após a conclusão da palestra, ao se dirigir a Kailash, o presidente da Abraminj, José Antônio Daltoé Cezar, asseverou:  “Nós, magistrados da Infância e da Juventude, também somos inconformados com essa situação das crianças e dos adolescentes. Saiba que somos parceiros nessa luta no dia a dia”.

Ao finalizar a cerimônia, a primeira vice-presidente, juíza Katy Braun do Prado, em nome da Abraminj, presenteou Kaylash com café orgânico e livros sobre trabalho infantil.