Conheça a história de adoção de um grupo de quatro irmãos

12 Jun 2019

Por: TJDFT
Foto: TJDFT

Davi (11 anos), Samira (10), Raphael (6) e Gabriel (4) são irmãos e foram adotados juntos por Renata Pereira e Bernardo Filho no ano passado. “Pensei em como seria ter que me separar da minha irmã. E, no caso do Bernardo, dos irmãos dele. Separá-los não era uma opção”, conta a mãe dos meninos. Apesar de sempre ter sido um desejo dos dois ter uma casa cheia, a decisão de adotar os quatro, de uma vez, não foi fácil. A escolha para eles, no entanto, chegou rápido para ser feita. Por conta do perfil cadastrado para adoção, pouco tempo após a habilitação, os dois foram apresentados a uma possibilidade real de aumentar a família.

A escolha do casal, no entanto, não corresponde à da maioria dos pretendentes à adoção. Das 137 crianças e adolescentes hoje disponíveis para adoção no DF, mais da metade (77) pertencem a algum grupo de irmãos. Sabendo dessa realidade, a adoção de irmãos é uma das frentes de trabalho do projeto “Em busca de um lar”, lançado pela Vara da Infância e da Juventude, em maio deste ano, para aumentar as chances de adoção daqueles que por essa razão, por questão de idade ou por terem alguma deficiência ou problema de saúde são preteridos. Saiba mais aqui.

Ampliando o perfil

“Desde que nós decidimos ter filhos, já pensamos nessa possibilidade. Sempre tivemos a adoção como uma forma de se chegar aos nossos filhos”, conta Renata. Após algumas tentativas frustradas de geração natural, os dois entraram com o processo de habilitação para adoção na Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal (VIJ-DF), no ano de 2017. A ideia inicial já era de adotar um grupo de três irmãos, com idades de 0 a 7 anos. “Era um perfil mais conhecido. Sou de uma família de três irmãos; a Renata, de dois. Mas ela sempre achava que três era muito melhor”, diz Bernardo.

Para o casal, o curso foi tempo importante de amadurecimento dos planos. “Aproveitamos para estudar, pensar, refletir sobre o perfil que havíamos cadastrado a princípio. Vimos que 7 anos era muito novo”, fala a mãe das quatro crianças. Após a habilitação, os dois vieram à Vara da Infância e o ampliaram. “Na sequência da habilitação, nós já aumentamos a idade para até 11 anos. Na mesma semana, nos ligaram pedindo para falar sobre os grupos de irmãos do DF e ver nossa abertura para aumentar também a quantidade de irmãos”, conta Renata. Não havia no DF, à época, um grupo de três irmãos, apenas de quatro, cinco ou seis.

“Eu de cara topei aumentar. Por ser professora e já lidar com crianças, entendia que a quantidade não seria a única questão”, afirma Renata. Bernardo conta que precisou tirar um tempo para refletir: “Para mim não pareceu uma coisa fácil de pronto. Com os três eu estava confortável. Já tinha tudo definido aqui. Precisei de um tempo, avaliei a situação, falei com família, amigos”. Os dois lembram a importância de respeitar o tempo um do outro e, assim, tomar a decisão mais acertada. “Passaram alguns dias dessa conversa, decidimos que seria possível um grupo de irmãos maior. Em seguida, conhecemos a história dos nossos filhos”, relata a mãe. No dia 5 de junho completou um ano do encontro de Renata e Bernardo com Davi, Samira, Raphael e Gabriel.

Construção de laços

O primeiro encontro foi envolto de emoções. “Eu fiquei tenso. Eles não são mais bebezinhos, já falam, emitem sua opinião”, conta Bernardo. Renata estava mais tranquila. Ela lembra que ficou marcada com uma pergunta feita pela menina do grupo de irmãos: “É pra eu começar a te chamar de mãe?”. Apesar de tocada, Renata lembra que deixou Samira bastante à vontade, pois sabia que a criação de vínculo seria um processo. “Pode me chamar de mãe, mamãe, Renata, Rê ou qualquer outro apelido carinhoso”, respondeu. Por livre opção, Samira conta que, hoje, chama Renata de “mãe”.

Bernardo relembra que tirou licença no trabalho para melhor aproveitarem o estágio de convivência, inicialmente com visitas apenas na instituição de acolhimento na qual os meninos viviam. “A gente decidiu fazer bem intenso, todos os dias. Todas as tardes a gente ia pra lá, brincávamos, comíamos com eles. Era cansativo ir e voltar. Mas sempre valeu a pena”, diz. Em seguida, vieram os primeiros passeios e a primeira pernoite com os filhos em casa, até que a vivência no lar se tornou definitiva, quando os quatro foram recebidos com muito carinho pelos familiares e amigos do casal. “Escolhemos dentro da nossa rede um casal de padrinhos para cada um”, narra Renata.

Adoção é real

Os primeiros desafios foram de construção da nova rotina da casa. Os dois relatam que foi necessário instalar camas, trocar de carro, fazer combinados e, claro, respeitar a mudança de vida, dos dois lados. “A primeira transição é da instituição para casa. Os combinados não são os mesmos, a rotina também não”, conta Bernardo. “De início, eles têm essa sensação de estar perdendo alguma coisa. Na instituição eles tinham muitos amigos, agora somos só nós”, completa ele. “É diferente agora. Mesmo assim, é bem melhor”, ressalta.Renata diz que, no primeiro momento, há um encantamento, como em qualquer situação nova na vida. “Com o tempo, as pessoas se mostram, colocam o que gostam e o que não gostam e podem ser quem são, soltar a voz e permitir essas sensações, dar voz aos próprios sentimentos”, afirma. Para ela, respeitar isso foi um dos grandes aprendizados e ajudou a consolidar a família. “O que eu sempre falo e compartilho com outras famílias é que a adoção não é romântica. Ela é real, é uma construção de vínculos. No início, somos estranhos para eles”. E completa: “Tem que haver uma abertura para acolher seus filhos com histórias e dividir o espaço da maternidade com outras figuras que já fizeram parte da vida deles”.

Com os desafios reais, Bernardo fala que a adoção permitiu a realização de um sonho comum com Renata. “Sempre tivemos o desejo de ter uma família. A adoção é uma grande oportunidade para a construção da nossa”, revela. “Ser pai biologicamente ou por meio da adoção, pra mim, é a mesma coisa: ser pai é assim, tornar-se”, finaliza Bernardo.

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